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Território da Música: Artigos (Rock)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Mutantes no Estúdio: Liberdade Total



Há que ser dito: os Mutantes sempre puderam gozar da liberdade de fazer o que bem entendessem dentro dos estudios de gravação. Manoel Barenbein, produtor dos dois primeiros LP´s, lembra: "Era uma loucura. A parte musical era dirigida pelo Arnaldo, e rolavam mil idéias". E cita exemplos. O que se ouve parecido com o som de um chimbau invertido em "Le Premier Bonheur Du JOur" (faixa do primeiro LP) é o ruído de uma bomba flit (aquela usada antigamente para vaporizar inseticidas). Na gravação de "Bat Macumba" eles incluiram na mixagem uma das falas da Rita, tipo "Manoel, me um Kri-Kri" (uma marca de chocolate da época), gravadas acidentalmente. E para a gravação de "Panis at Circensis" foram convocados vários funcionários do estúdio, inclusive o proprio Barenbein, para que fizessem ruídos de mesa de jantar, com falas do tipo "me passa a salada", ruídos de talheres etc. Os primeiros LP´s foram gravados em quatro canais. Através do método de redução, eles conseguiam adicionar orquestra, percussao e vozes, bem no esquema Sgt. Peppers dos Beatles. Só que a maioria dos efeitos eram "criados" no estudio. Claudio Cesar Baptista, irmão mais velho de Arnaldo e Serginho, foi responsável pela invenção da maioria deles, como, por exemplo, um engenho que unia motor de maquina de costura e "tremolos" (efeitos que variam graves e agudos) para criar sons semelhantes aos de uma moto. E para a gravação de vozes "diferentes", Claudio bolou uma serie de truques, como a utilização de fones de ouvido ligados em caixas Leslie, ou microfones ligados a efeitos sintetizadores. Nas capas dos LPs dos Mutantes faltam muitos creditos importantes. O baterista do primeiro LP (que é o unico em quem Dinho não toca) é um tal de Dirceu, baiano, musico de estúdio. No mesmo LP Jorge Ben canta em "A minha menina". A dupla caipira que toca e canta com os Mutantes em "2001" do segundo LP, não é citada e ninguem (das pessoas envolvidas na produção do disco) se lembra do nome deles (aliás, os fão provalvelmente sequer desconfiavam que aquela entrada "caipira" em 2001, nao foi feita pelos Mutantes). E, ainda no mesmo LP, Liminha toca viola na faixa "Mágica" (ele ainda não era integrante do grupo). No LP A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado, outro esquecimento importante: quem toca conga em "Ando Meio Desligado" e "Meu refrigerador não funciona" é Naná Vasconcelos (a gravação foi feita pouco antes dele viajar para a Europa).

Os Mutantes - Os Mutantes (1968)


Para o resto do mundo, o Brasil significava futebol, belos corpos e bossa nova. A frase "ditatura militar repressora" aparecia em poucos guias turísticos. A chegada dos hippies no verão de 67 trouxe a contracultura para o foco das atenções, com resultados devastadores. Liderados por jovens compositores como Gilberto Gil, Caetano Veloso, os tropicalistas pegaram tudo o que tinham ouvido em Londres e São Francisco e fizeram a coisa do seu jeito. A direita odiou seus cabelos, sua moralidade e as drogas; a esquerda detestou como eles corromperam a musica brasileira de raiz. Os Mutantes flutuavam nesse redemoinho - Rita Lee e os 3 irmão Baptista (apenas dois apareciam no palco). Quer saber de uma esquisitice? Dois minutos depois de começar a faixa de abertura, "Panis at Circensis", o toca-discos parece diminuir a rotação e parar. Quando a pessoas levanta para ver o que aconteceu, o aparelho volta a vida. E, quando senta novamente, a musica termina com os ruídos da banda fazendo uma refeição - uma sonoplastia da sala de jantar mencionada na letra. A iluminada "Minha Menina" vem a seguir, com as guitarras distorcidas e efeitos eletronicos feitos a mão pelo terceiro irmão Baptista. Parece um pop perfeito para ser tocado em Copacabana, mas o hippies estavam sendo fisicamente atacados de todos os lados. Em 1968, o governo brasileiro adotou o estado de exceção. Gilberto Gil e Caetano Veloso se exilaram; o tropicalismo evaporou. Os Mutantes, claramente incapazes de liderar qualquer revoulução, continuaram e, na verdade, cresceram em popularidade no inicio dos anos 70. Devem ser lembrados pela insana Bat Macumba ( o samba "Tomorrow Never Knows") e "Baby" (uma "Eleanor Rigby" erótica).

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

T. Rex - Eletric Warrior (1971)


Marc Bolan é um dos personagens mais interessantes da história do rock. Com seu jeito de Byron moderno e um misticismo hippie - obscuro mais delicioso - Bolan sempre foi audacioso. Sua carreira consta de elouquecedores altos e baixos (ele escreveu ainda um best- seller de poesia, The Warlock of love), mas seu ponto maximo foi Eletric Warrior. Que, como tudo que fazia, é recheado de surpresas. o T. Rex ja tinha feito sucesso na Inglaterra - no entanto, Bolan queria angariar fiéis do outro lado do atlantico. Ele pegou a estrada com os novos integrantes da banda, o baixista Steve Currie e o baterista Bill Legend - chamado para ajudar na percussao, a cargo de Mickey Finn. O grupo começou a editar algumas faixas a caminho de Londres, Nova York e Los Angeles. Os singles lançados na ocasião apontavam para um som mais ousado, mas só quando Eletric Warrior saiu foi possivel constatar como era sensacional. A arte da capa resume a perigosa promessa de poder do rock, com Bolan empunhando a guitarra como uma aram, diante de um arsenal de amplificadores. No entanto, em vez de destruir o ouvinte num ataque sonoro quando a agulha baixa sobre o vinil...Warrior começa com a explosão abafada da guitarra, um delicioso contratempo e um convite para cantar "beneath the bebop moon" em "Mambo Sun". O lindo dedilhado acustico de "Cosmic Dancer" vem em seguida, com seu rico arranjo de cordas. E o disco segue desta forma, às vezes rouco e obsceno, às vezes mediativo e romantico. O single "Bang a Gong(Get it On)" chegou ao top 10 dos EUA, mas o T. Rex nunca conseguiu satisfazer a ambição de Bolan de virar uma estrela internacional.

Santana - Abraxas (1970)


"A musica é a união de dois amantes: a melodia e o ritmo.A melodia á mulher e o ritmo, o homem." - Carlos Santana, 1994


No verão de 1970, Carlos Santana, aos 22 anos, já acumulava vários discos de platina por um album no qual incluiu dois singles que entraram para os Top 40; fez uma performance inesquecivel diante de metade do mundo em Woodstock e ganhou uma crescente legião de fãs. Até hoje, quem faz sucesso na estréia é encorajado a continuar gravando aquilo que funcionou da primeira vez. Mas Santana aderiu ao freak rock de São Francisco, onde os artistas garimpavam sua imaginação e transformavam tudo o que descobriam em rock´n´roll. Santana elaborou um segundo disco que viajava para alem do rock, até o jazz e a salsa, no ritmo de um coração latino. Apesar de serem a face visivel da banda, Carlos e sua guitarra impecavel eram meros componentes de uma engrenagem extremamente talentosa, e em Abaraxas cada integrante do grupo marcou presença. Gregg Rolie foi o responsavel pelo orgão sedutor que transformou "Black Magic Woman" e "oye como Va" em classicos isntantaneos do radio, e tambem compôs os rocks mais pesados "Mother´s Daugther" e "Hope You´re Feeling Better", em que os riffs tipicos de Carlos pairam acima da musica. O baixista Dave Brown e o baterista Mike Shrieve assentaram, neste album, as bases do que seria uma das melhores e mais afiadas seções ritmicas da história da musica, e pavimentaram o caminho para os exuberantes címbalos e congas de Mike Carabello e Jose Areas. No lançamento de Abraxas, a Rolling Stone afirmou que Santana "pode fazer pela musica latina o que Chuck Berry fez pelo Blues". Quando i albúm chegou ao primeiro lugar nas paradas, já trazendo as batidas mais firmes que o establishment do rock já tinha ouvido, o prognóstico da revista pareceu até modesto.

Blue Cheer - Vincebus Eruptum (1968)



"Rock´n´roll...é 10% técnica e 90% atitude. Uma nota com atitude certa é mais eficiente do que 60 notas sem atitude". - Dickie Peterson, 2005


Foi ai que as coisas ficaram heavy de verdade. Inspirado no nome de um tipo de LSD que, por sua vez, havia sido batizado com a marca de um sabao em pó, esse trio de São Francisco aumentou as apostas no noise rock com seu album de estreia, pavimentando o caminho para os Stooges e o Zeppelin, do heavy metal ao rock experimental. Está certo que ja existia, nos anos 60, batida primal de inumeráveis bandas de garagem, mas nenhuma tinha estabelecido um padrão de som de abalar as estruturas, nem a intensidade de feedback do Blue Cheer. Daí o epíteto atribuído ao grupo:"mais alto do que Deus". Da primeira vez que o Blue Cheer tentou gravar Vincebus Eruptum, estourou a mesa de mixagem. Com as devidas precauções, a banda conseguiu fazer o melhor LP, disparado, de sua carreira, composto por quatro musicas originais e duas versões: uma leitura virulenta, ameaçadora e suja de "Summertime Blues", de Eddie Cochran (superior até a a versão poderosa do The Who), e o classico do blues "Rock me Baby". A primeira ficou entre os 20 maiores sucessos da parada americana, algo surpreendente, talvez, para uma banda mais interessada em atingir limites do volume e nada preocupada com a musicalidade. Eles não eram exatamente bons musicos, mas há alguma coisa de admiravel e hipnotico nos gritos extemporâneos e no barulho mas controlado, e nos berros de Dickie Peterson enquanto a banda literalmente chacoalha em "Parchment Farm". Da capa em roxo e prata ao espirito "cada vez mais alto", este disco é um importante marco dos primeiros tempos do Heavy Metal.



Love - Forever Changes (1967)



"Quando gravei o disco, achei que fosse morrer". - Arthur Lee, 2001


Em 1967, o Love era a banda mais festejada de Los Angeles, depois dos Byrds. A fase hits dos Byrds, porem, estava chegando ao fim, mas o Love não estava suficientemente preparado pra tomar seu lugar:era um grupo etinicamente misturado, com dois líderes negros que faziam uma musica de pouco apelo para o publico negro; as canções se alongavam por lados inteiros dos LP´s; e a dependencia de drogas da banda tinha aumentado vertiginosamente. No verão de 1967, o The Doors e Jimi Hendrix monopolizavam todas as glorias. Então, o Love voltou ao basico, planejando um album com o foco nas musicas. Quando Bruce Botnick chegou para produzir o disco, encontrou a banda em um estado tão lastimavel que, imediatamente, contratou musicos de estudio. Duas faixas, "The Daily Planet" e "Andmoreagain", foram gravadas num unico dia, e a banda ganhou uma folga para trabalhar em conjunto novamente ensair um punhado de musicas. Dali por diante, cada dia no estudio significava se dedicar a algumas canções e, depois, o grupo poderia sumir dali para aprender as proximas. A gravação do disco levou quatro meses, mas os resultados foram ineditos. Acid rock não era pra ser tocado com violão e orquestra sinfonica - ou era? Muito inovador para o gosto da Costa Oeste, o LP não conseguiu sequer alcançar o desempenho modesto dos discos anteriores da banda nas paradas dos EUA; na Inglaterra, porem, o album lembrava o jeito brincalhao e interiorando dos Beatles, Small Faces e Donovan (embora ouvido mais atento pudesse identificar o turbilhão dentro da banda e da própria Los Angeles no verão do Amor), e entrou para os Top 30. A essa altura, no entanto, a banda estava desmoronando e nunca recuperou sua força.

The Beatles - Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band (1967)


Vamos navegar de volta a 1967, quando os beatlemaniacos que haviam tentado achar o prumo com Ruber Soul e Revolver seriam recompensados com uma divertida fantasia musical, Sgt. Pepper...ficou 15 semanas no topo da parada da bilboard e ainda estava entre os cinco primeiros quando Magical Mystery Tour chegou à liderança, seis meses depois. Por quê? Porque a ampliação de horizontes proposta pelo album vinha ancorada em composições brilhantes. Desde a abertura contagiante de McCartney (que Jimi Hendrix tocou ao vivo dois dias depois de lançado o disco), passando pela caleidóscopica "Lucy in the sky with diamonds", de Lennon, até a atordoante "A Day in the life", composta pela dupla, cada musica é um tesouro. Apesar da omissão de "Strawberry fields forever" - o single provocativo que fez a ponte entre Revolver e Sgt. Pepper... -, o album contem elementos psicodelicos: filosofia oriental ("Within you without you", de Harrison), e menção a drogas (embora Lennon tenha negado as referencias ao LSD em "Lucy", McCartney deixou tudo claro com "Fixing a Hole"). O certificado de Sgt. Pepper...como uma obra da pop art foi conferido pela capa mais famosa da historia do disco. O designer Peter Blake imaginou primeiro uma caixa de presente. mas acabou optando por juntar na capa uma serie de recortes de cartolina (alguns rostos famosos - Jesus, Hitler, Gandhi - não sobreviveram à montagem final). O album causou um impacto sem precedentes. As radio o tocaram dias a fio. O critico Kenneth Tynan, do The Times, o classificou como "um momento decisivo na historia da civilização ocidental". Essa hiperbole ja nao se aplica, mais ficou um pop perfeito, no qual a ousadiae a musica se mesclaram para sempre.
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